Marcio S Galli, 5-8-2024
Minha relação com a escrita é complexa, lenta, frustrante mas não diferente de muitas ela começa com um sonho. Acredito que este é, em parte, o sonho da minha mãe: que eu estivesse mais envolvido com leitura e escrita e também com a língua portuguesa.
Bom, vamos por partes, começando com a leitura. Em algum momento, durante minha infância, ela me deu um livro especial intitulado Uma História Meio ao Contrário. Este livro foi marcante. Eu adorei porque começava com "e eles viveram felizes para sempre". Talvez lá mesmo minha jornada começou no rumo da história meio ao contrário. Depois disso, o próximo livro que conseguí ler foi Código da Vinci em 2003. E é isso - essas foram minhas leituras. Se esses dois livros fossem pães, no meio teríamos então um recheio de 20 anos, sem leitura. Lógico, que neste meio tempo fiz muita coisa. Mas o que importa é que fui um mestre na sutil arte de escapar das leituras.
Na questão da língua portuguesa, nada muito diferente. Eu praticamente passei toda a minha vida escapando da escrita. Eu tinha fome por tudo que era fora disso. Crescendo, estava sempre longe como da língua portuguesa. Minha vontade de correr me levou para lugares diferentes. Nesta construção eu encontrei conforto no mundo das exatas. Até achei que gostava de exatas, achava que gostava de ser racional, tipo o lógico. Mas a lógica, de verdade, era que este mundo parecia ser menos complexo.
Mas veja bem, eu tinha uma ligação com arte. Disso eu sabia por conta de fortes memórias da infância, da minha vontade de desenhar. Eu também havia me divertido com experiências durante a juventude, quando tentei criar filmes. Fiz um longa metragem de 90 minutos com meu irmão, antes de roubarem a nossa filmadora. Com o roubo da filmadora acabou-se o cinema. E assim fui crescendo e me distanciando da escrita como arte e me tornando um programador. De uma forma ou outra eu rodeava o mundo da comunicação. Talvez por não entender, ou ter medo, ou não saber como me envolver, sempre me aproximava da comunicação por meio do mundo da tecnologia. Fui progredindo, dando corda para este modo de viver, fazendo um pouco de desenho digital, depois um pouco de animações gráficas em 3D, depois com a Internet fazendo as páginas, os sites, etc.
No meio disso tudo acabei escapando para o Vale do Silício por conta que fui acolhido por corajosos evangelistas de tecnologia da famosa Netscape. Era famosa na época dado que tudo do vale repagina bem rápido. Trabalhando para a Netscape, ou de certa forma rodeando, acabei em marketing. No time de evangelistas eu prepaga a palavra da tecnologia, fazendo artigos e ensinando os programadores a criar sites. Também dava palestras e convidava amigos para escrever por conta que era editor de uma revista para desenvolvedores. Colocava em tudo um toque de arte. Se eu tivesse que me empacotar - para vender - eu diria um pseudo artista com pseudo programador com pseudo escritor técnico. Mas uma coisa era fato, que a minha comunicação, escrita ou falada, era confusa. E outra, que eu continuava a escapar. E outra, que eu continava a rodear sem entender como lidar com aquilo. Eu não me via como um escritor porque para isso teria que ver escrevendo bem. E eu não conseguia entrar pela porta do escrever bem.
Depois da Netscape depois da Yahoo! e depois de trabalhar na Mozilla (aquele povo que criou o navegador Firefox) eu voltei ao Brasil e avancei como empreendedor. Isso aconteceu depois de uma visita de volta ao Vale do Silício por conta de ter comprado um livro sobre investimento anjo. O livro me impulsionou para o mundo do empreendedorismo e assim outra década se passou. Comecei a emprender mas sempre escrevendo. Nesta fase, eu continuava a rodear então escrevia coisas como artigos de marketing, artigos científicos e continuava a das palestras. Sempre gostei de mostrar o que eu fazia. Eu confesso que isso criava uma percepção de culpa. Porque parecia que era uma vontade de me mostrar. Eu só não sabia que não era sobre me mostrar e que seria um pouco de vontade de expresar. Pior ainda, que essa crítica, possível diagnóstico, era uma baita de uma pedra do caminho. Uma montanha.
Depois dessa volta, as coisas foram ficando claras. Isso você pode perceber pela própria narrativa que praticamente diz nada sobre o momento da mudança. É isso mesmo. Foram dédacas rodeando mesmo. O que entendo, hoje, é que entrei de cabeça no escrever - como um escritor - de certa forma por acaso. Ainda, que a chave não é muito diferente daquela historinha infantil - Uma História Meio ao Contrário - que dizia "e eles foram felizes para sempre". O que eu encontrei, se fosse uma chave para a resposta - foi uma ideia que demandava ser feliz antes de começar. Então precisei lidar com o crítico que estava no meu caminho. O ser sabe tudo que criava a pedra ou a montanha. O ser que não sabia de nada sobre o que é ser um escritor.
Em retrospectiva, duas situações vieram antes da mudança. A primeira é que eu ainda queria, que havia uma luz quase morta mas estava lá. A segunda, é que eu não tinha a mínima noção que as barreiras eram sem fundamento ou criadas ou potencialmente materializadas ou aumentadas em grande parte pela minha capacidade de imaginação. Se fosse um jogo de encontrar um único resposável pela mudança, eu diria Julia Cameron. Diria que a renomada autora especialista em destravar artistas bloqueados, famosa por seu livro intitulado O Caminho do Artista, me deu o caminho.
Mas outros autores me ajudaram nessa jornada, lógico. Tudo começou a mudar quando entrei no mundo dos autores – de verdade – que falam sobre as dificuldades do processo. Escritores que ajudam escritores e que trouxeram leituras que me fascinaram e me acolheram. Eu não esperava que a chave para ser escritor estaria essencialmente neste tipo de leitura que carrega caracterizações de auto ajuda, ou reflexões, e falam sobre a psique do escritor e do ser humano.
Hoje eu estou certo de uma coisa: Que meu escritor interior está desbloqueado. Veja bem, isso não é uma notícia tão boa. Digo isso pois carrego uma besta indomável. Sim, eu posso vomitar textos. A experiência é como ir em uma churrascaria acelerada no Brasil, daquelas que tem uma ficha verde de um lado com vermelho do outro. Na hora de escrever, como agora, eu estou sempre no verde. Não tem como segurar. Espetos de coração caem no meu prato, espetos de coisas quentes ou coisas cruas, espetos que não espetam e que jogam coisas deliciosas no meu prato. Quando eu preciso editar - raro porque ainda não sou um bom editor - eu tento virar a ficha para o vermelho como quem diz "Marcio, pára, hoje era só para editar um parágrafo, não para vomitar 12 páginas".
O que me surpreende é que esse processo vem com vida. Se eu tivesse que passar um mini currículo, essencialmente nos distraindo do ponto principal, sobre o antes e o depois de pular o muro, eu resumiria assim: Alguém que não lia nada e fugia da escrita, que rodeava por décadas, se envolve com escrita técnica de uma forma ou outra, como sites, de artigos, de palestras e até como autor de uma patente na área de tecnologia. Acaba que esbarra em um ponto de inflexão e pula o muro. Hoje, do outro lado do muro tenho alguns dados novos. Passei por 290 dias como escritor, essencialmente escrevendo. Estou atualmente envolvido com 3 livros, um em inglês, para empreendedores, intitulado Slow Down do Start-Up. O outro é a "apostila" que acompanha este curso Escrevendo um Escritor que espero que se torne outro livro. E outro, o terceiro, é uma proposta para uma editora, intitulado Além da Marca.